segunda-feira, 1 de abril de 2013

O que eles me disseram sem falar

Ontem cheguei ao aeroporto muito antes do voo chegar (!). Parte da espera foi passada a ler. Mas mais perto da hora de chegada do voo aproximei-me daquela área em que familiares e amigos (e também os agentes de viagens!) aguardam pelos passageiros que chegam a Lisboa. É contínuo o fluxo de pessoas que a todo o momento passam aquela porta, chegados das suas viagens, carregados com as suas bagagens, com os seus pensamentos, alegrias e preocupações. E eu simplesmente adorei aquilo. Não sei se foi um escape por estar à espera e a minha mente agarrou aquela distracção com unhas e dentes, mas a verdade é que achei aquilo a coisa mais interessante do mundo naquele momento! Estar ali apenas a observar as pessoas que vão saindo por aquela porta. Ver quem são, como vêm, com quem vêm, que coisas trazem, que expressões fazem quando chegam. É maravilhoso observar sem ser observado. Ali, no meio da multidão, eu analisava cada pessoa que aparecia. E construía-lhes histórias, baseada nas suas expressões, nas suas roupas e origens, nos seus traços, no que traziam e com quem vinham. Uns provavelmente tinham ido ou vinham em trabalho (sozinhos, carregados de tubos com projectos e malas pequenas que acusam viagem de estada curta), outros vinham à procura de trabalho (carregados de bagagens e esperança, de olhar meio surpreso e sorriso meio parvo de curiosidade num novo clima nova gente...novas oportunidades e possivelmente de uma vida materialmente melhor na Europa), outros ainda que vinham matar saudades da família, dos pais e dos avós que os esperavam ansiosamente e que começaram a chorar e a acenar assim que vislumbraram os seus e os agarraram e lhes davam abraços apertados, as amigas de jeito rebelde que  de certeza fumam ganzas e estão numa viagem de raparigas de mochila à costas a percorrer o mundo, os desportistas que nas suas sapatinhas (ou ténis como preferirem) e roupas de poliester com cores flourescentes vinham de andar arqueado e corpo cascavel mas descontraídos, os casais que vinham chateados a olhar de soslaio um para o outro, a assoprar e a revirar os olhos, os outros casais riquinhos com filhos cada um com a sua mala, a das crianças  mimadas cheia de apliques e bonecos da disney que muito provavelmente foram passear ou fazer compras nalgum sítio, a mulher que chegou sozinha com 5 rapazes pré-adolescentes com ar de mariolas de boné ao contrário e que deviam vir de uma instituição pobre e ela era a responsável que trazia um saco de plástico enorme transparente ao ombro com as roupas todas enroladas, o marido que chegou com a filha loira e de tranças que foi recebido pela mulher loira também com muitos beijos e esfreganço de tal forma que a própria filha os olhava sentada no carrinho das bagagens a rir-se e a pensar alto "os meus pais são doidos!adoro-os!", o pai que regressou e tinha a filha de 3 anos com uma flor à sua espera mas que logo a deixou cair assim que viu o pai e começou a correr ao seu encontro gritando de alegria, os "full of style" que se percebe logo que trabalham em design ou algo a ver com moda que trazem vestida roupa diferente, justa ou muito larga com cores e padrões que destoam, os regressados de lua-de-mel uns muito a sorrir outros nem tanto (oops!), os brancos, os pretos, os amarelos, todas as raças! Adoro isto. É uma das razões por que também gosto muito de ler. Gosto de imaginar como quiser as personagens, as suas histórias e reacções. A natureza humana é infinitamente interessante e complexa.

E pronto. Se pudesse este seria o meu mais novo passatempo. Seria até ficar cansada de ver tanta gente e inventar tanta história.
Se sou maluca ou simplesmente parva?! Sim é capaz. Mas cada um gosta do que gosta. E eu gosto de observar, tentar perceber e acima de tudo gosto de sonhar!