domingo, 27 de maio de 2012

Anne Frank huis

(do Livro - A Story for today - Anne Frank - Anne Frank House)

Não foi há muito tempo que, em visita a Amesterdão, fiquei a conhecer a casa/museu de Anne Frank (huis = casa). Foi naquela mesma casa, naquelas estreitas divisões que Anne Frank e a sua família e amigos estiveram escondidos, à espera que a Guerra terminasse ou que alguém subitamente fizesse luz na cabeça e no coração daqueles que perseguiam e matavam judeus.... apenas porque eram judeus.

A história da II Grande Guerra e a forma como começou sempre me inquietaram o espírito. Continua a assustar-me porque revelam a fragilidade e crueldade humanas e suas inseguranças, que de um momento para o outro pode voltar a fazer coisa semelhante, basta que um povo se sinta peremptoriamente ameaçado. Não entendia (e parte de mim continua a não entender mesmo após ter conhecimento dos factos históricos e conjunturais que culminaram no Holocausto e no genocídio de milhões e milhões de pessoas) como é possível alguém como Hitler ser eleito democraticamente, ser aceite e venerado, ninguém o conseguir deter a implementar uma política fanática anti-semita e facilmente conseguir incutir um ódio nos alemães e raça ariana relativamente aos judeus (ou todos os que étnica, cultural e religiosamente fossem diferentes!) capaz de os fazer perseguir e assassinar famílias inteiras e não sentir um pingo de remorso. Muito pelo contrário, eles faziam-no com o maior orgulho porque de alguma forma sentiam que estavam a salvaguardar o que é seu,  num acto de patriotismo cego e completamente radical.

Na casa museu sente-se algo. Eu senti. É claro que foi arranjada de forma a que possa ser visitada, e a disposição das coisas não é necessariamente igual ao que era quando servia de abrigo à família Frank, e entretanto também já por lá passaram milhares de pessoas. O que nos toca é deixar-mo-nos sentir, através dos relatos ditos e escritos, o que sentia alguém (e Anne Frank é apenas um veículo que nos permite imaginar como se sentiria qualquer criança e respectiva família judaica naquela altura na Europa) que de um momento para o outro passa a ser um alvo a abater, perde o direito à vida (que é um direito universal), perde o direito a ter uma vida normal, a poder trabalhar, estudar, conviver, passear... a sonhar... Como é que isso é possível? Foi. E é. Ou é, e foi...

A meu ver Anne Frank era uma criança/jovem adorável. Inteligente, espontânea, genuína, madura, sonhadora e sensível. É isto que percebo dela através da sua escrita, dos seus raciocínios e da sua imagem. E é através das suas palavras e da sua expressividade que continua a espalhar-se no mundo a mensagem mais importante que nos deve ficar da História do Holocausto: todas as pessoas têm o dever de se respeitarem entre si. A violência é o caminho da destruição e por aí não chegaremos mais longe do que a um vazio redutor e dizimador da própria Humanidade, de nós mesmos.

Factos históricos e contextuais que considero mais relevantes:

1914-1918 - O pai de Anne Frank e o seu tio Robert lutaram na I Grande Guerra, no lado alemão. A avó foi enfermeira voluntária num hospitar militar alemão. (Não deixa de ser irónico saber que uma familia que lutou por um país pôde vir a ser perseguida e morta por esse mesmo país...). A Guerra termina com a derrota da Alemanha. Pelo Tratado de Versalhes a Alemanha é obrigada a pagar pesadas indemnizações aos outros países. Milhões de pessoas ficam desempregadas. Vive-se num ambiente de crise, pobreza e medo. Muitos alemães sentem-se amargurados e querem vingança.;
1929 - 12 de Junho - Nasce Anne Frank, na Alemanha. Família de judeus liberais; Vive-se uma severa crise económica na Alemanha;
1932 - Por causa da crise e das dificuldades em que vivem, muitos alemães sentem-se atraídos pelas ideias extremistas dos partidos radicais. O NSDAP - partido nacional-socialista dos trabalhadores alemães, é o partido de Hitler e promete a solução para todos os problemas dos alemães. Os seus cartazes diziam: "Hitler - a nossa última esperança!". Neste ano o NSDAP torna-se o maior partido político no parlamento, com 37% dos votos nas eleições.;
1933 - 30 de Janeiro - Adolf Hitler torna-se Chanceler da Alemanha. Começam a ser aprovadas as primeiras leis anti-semitas. O pai de Anne Frank, Otto Frank, teme o pior, decide deixar a Alemanha e emigra com a família para Amesterdão, nos Países Baixos (Holanda).
A 23 de Março o Parlamento aprova que Hitler governe sem necessidade dos representantes da população. Está então implementada a ditadura, a perseguição aos judeus (e saque ao seu ouro e reservas) e demais opositores políticos.;
1934 - 1935 - Recuperação económica da Alemanha. O desemprego decresce. Retornam o "sossego e a ordem". A prosperidade aumenta. Constroem-se auto-estradas, edifícios do Estado e obras públicas. Assiste-se à criação de uma indústria de armamento e um grande exército. Há, pelas razões apresentadas, um grande entusiasmo por Hitler e pelo seu partido. Hitler tem como objectivos principais: a criação de um povo alemão superior (a "Raça Ariana Pura") e a criação de um Grande Império Alemão. Para isso é preciso conquistar novos territórios e judeus, ciganos, homossexuais, Testemunhas de Jeová e deficientes são vistos como ameaças à Raça Pura. Os judeus tentam fugir para outros países mas são cada vez mais os que fecham as fronteiras. Durante os anos que se seguem intensifica-se a perseguição, a humilhação, e discriminação a todos os não-arianos ou contra-regime;
1939 - Setembro - Começa a II Guerra Mundial. A 23 de Agosto a Alemanha assina um Pacto de Não-Agressão com a União Soviética. A 1 de Setembro invade a Polónia.;
1940 - 10 de Maio - O exército alemão invade também a Holanda, Bélgica, e França (embora os nazis vejam estes povos como "irmãos").;
1941 - completa-se o registo e isolamento dos judeus, na Alemanha e nas áreas ocupadas. A intenção é matar os 11 milhões de judeus europeus.;
1942 - começam as deportações para os campos de concentração e extermínio, a maioria situados na Polónia. A 6 de Julho a família Frank entra na clandestinidade. Passam a viver no Anexo Secreto, sito no prédio da empresa de Frank e sócios, em Amesterdão. Deixam de ter contacto com o mundo exterior. Permanecem no esconderijo cerca de 2 anos. Os colaboradores de maior confiança levam-lhes comida, roupa e livros. Vive-se sob grande tensão, ansiedade e medo.;
1944 - 1 de Agosto - Anne Frank escreve pela última vez no seu diário. A 4 de Agosto a família é capturada e deportada. Até hoje não se sabe quem os denunciou... Vão para o campo de Westerbork e a 3 de Setembro partem com destino a Auschwitz. Em Outubro Anne e a irmã Margot são levadas para Bergen-Belsen.;
1945 - Março - Margot (irmã de Anne) e Anne, doentes de tifo, morrem, com poucos dias de diferença uma da outra. A mãe delas (Edith Frank) entretanto tinha já morrido em Janeiro mas elas nunca souberam pois estavam separadas. O pai sobrevive. No final de 1945 é libertado pelos russos, em Auschwitz. Ele não sabe se a família ainda está viva ou não. Mais tarde fica a saber que tanto a mulher como as filhas estão mortas. 
Termina a II GG, com a vitória dos aliados. Mais uma vez a Alemanha perde a guerra.;

1947 - Junho - o "Diário de Anne Frank" é publicado pela primeira vez. (Actualmente está traduzido em 55 idiomas, e mais de 20 milhões de exemplares foram vendidos);
1948 - é aprovada a Declaração Universal dos Direitos Humanos;
(...)
1960 - o Anexo Secreto é aberto ao público. Tem como missão a sensibilização acerca da discriminação, preconceito e violação dos direitos humanos.
(...)
1986 - ficou cientificamente comprovado que o diário é verdadeiro. Isto para os que afirmam que o Holocausto nunca existiu...

"A uma lei anti-semita seguia-se outra, e a nossa liberdade foi seriamente restringida. Os judeus são obrigados a usar uma estrela-de-David na roupa; os judeus são obrigados a entregar as suas bicicletas; os judeus não podem andar nos eléctricos; os judeus não podem andar de automóvel, mesmo em particulares; os judeus só podem fazer compras entre as 3 e as 5 horas da tarde; os judeus só podem ir a barbeiros judeus; os judeus não podem sair à rua entre as 8 horas da noite e as 6 horas da manhã..."

"A melhor coisa é poder escrever o que penso e sinto, caso contrário, iria sufocar-me completamente."

"Ontem, ao espreitar pela cortina, vi dois judeus. É uma sensação estranha, quase como se eu os traísse e estivesse aqui para espionar a sua infelicidade."
(Anne Frank)

sábado, 26 de maio de 2012

Calvin & Hobbes

As tiras de Calvin & Hobbes, do cartoonista Bill Watterson, são só assim deliciosas... São as aventuras de um miúdo de 6 anos, impulsivo, imaginativo, muito curioso, mau-feitio mas de bom coração e do seu peluche de estimação, que para o Calvin é um tigre muito grande, comilão, preguiçoso e brincalhão e companheiro de todas as peripécias. Na escola as coisas não correm lá muito bem...e em casa com os pais ou a baby-sitter nem sempre o Calvin consegue mostrar o seu lado bom...mas nas suas brincadeiras e raciocícinios é um miúdo adorável. Eu gosto imenso e tenho montes de livros deles. Estas tiras que coloco aqui para agora partilhar convosco são do "Progresso Científico Uma Treta!" (ou "Scientific Progress Goes Boink") publicado pela 1.ª vez em 1989. Deliciem-se... :)

 oops.... isto às vezes também me acontece a mim!! :S Those days...

 Ai as questões filosóficas... podem ser... mesmo muito pouco práticas....
 ahn ahn...
 the best!!!
Isto de tomar decisões tem mesmo muito que se lhe diga.... que o diga o Hobbes...

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ashes and Snow


Há poucas coisas que me despertam assim a atenção. Sou muito curiosa (mas também selectiva) acerca do que me rodeia, quero ver e tentar perceber as coisas, sonho com viagens em redor do mundo só para  experimentar a forma como se desenrola a vida em países e culturas diferentes, gosto de observar pessoas e outros animais e adoro ler sobre tudo (e sobretudo!) e mais alguma coisa, mas normalmente sou eu que, consciente e racionalmente, defino as coisas a que dedico o meu tempo. Mas neste caso (e obviamente que não deixo de ser eu a definir porque algo na minha mente está apto a sentir-se atraído por determinadas coisas!!) foi o “objecto” que me chamou a si. Se isto não é o que chamam de atracção então não sei o que isso seja. Mesmo... E esta é uma daquelas em que nos sentimos a ser sugados para um outro plano existencial, numa saborosa e avassaladora obsessão, daquelas que não conseguimos desviar o olhar, não conseguimos disfarçar, não conseguimos largar.
É bom seguir estes chamamentos porque é através destas pequenas curiosidades que acabamos por descobrir coisas muito interessantes e bonitas.

No no my friends… não vos vou aborrecer com historinhas de atracção física e paixão carnal (sorry!), tão banais que são hoje em dia e por isso perderam todo e qualquer interesse. O “objecto” aqui mencionado trata-se de…. uma esplêndida fotografia!! (sim….peço desculpa pela desilusão que alguns possam ter sentido! Please move foward...).

Um aparte: Já repararam que as coisas hoje em dia se processam rápido demais? E que são demais? As coisas que se processam?
Por isso é que cada vez mais acho que falta verdade ao que se experiencia, ao que se sente. Cada vez mais apercebo-me que a quantidade de informação a que somos expostos, o que nos é pedido para absorver e sentir, é demasiado, é cansativo, e tal como uma droga induz-nos numa dormência, numa cada vez maior inconsciência das coisas como elas realmente são. As coisas assim anulam-se por si só, perdem valor. Muito não significa bom e melhor. Vejam o processo inerente ao vício da droga: induz a um consumo cada vez maior em busca de uma sensação de prazer que após as primeiras vezes deixa simplesmente de existir, para sempre. Isso acontece no momento crucial em que o prazer é substituído pela necessidade e vício. Assim vejo algumas coisas hoje em dia. A forma como a vida se desenrola está assim. A quantidade de coisas que nos é exigida e que exigimos de nós próprios deixa-nos sem tempo para realmente viver essas coisas. Pensamos que as vivemos, mas no fundo sabemos que não as sentimos mesmo.

Voltando à fotografia, fiquei completamente absorvida pela beleza que emana esta imagem. Senti-me permissiva e prazerosamente presa, senti também que precisava a todo custo saber de onde vinha, o que era, e o que representava.
Esta imagem faz parte do trabalho criativo de um artista canadense - Gregory Colbert: ASHES AND SNOW e trata-se de uma exposição fotográfica, filmes e um romance que viajam pelo mundo num museu itinerante criado para esse efeito: o Nomadic Museum. Já percorreu diversos países, tem até à data o maior n.º de espectadores/ visitantes e a cada país que visita altera a forma como a exposição é apresentada. Mesmo muito interessante não é?!

As fotos e filmagens foram recolhidas pelo artista nas suas muitas viagens por todo o mundo, e pretendem acima de tudo explorar “as sensibilidades poéticas partilhadas pelos seres humanos e pelos animais”, o laço que existe entre nós e os restantes animais, e de como a nossa convivência poderia ser mais harmoniosa. Mais apaziguadora. O artista defende que as imagens não foram sujeitas a qualquer tipo de alteração, colagem e afins. Se foram ou não, não é de todo o que me interessa. Interessa-me sim o magnetismo que emanam. A serenidade e a porta que parecem abrir para um determinado estado de espírito que eu gosto. Lindíssimas e inspiradoras…. Não tenho mais palavras para descrevê-las. E por que me atraem não me canso de olhá-las.

A exposição tem recebido as melhores críticas da imprensa internacional. A que mais se aproxima do que penso: Alan Riding, do New York Times, declarou em Veneza (na estreia da exposição, no ano 2002): “As fotografias em tons de terra são impressas em papel japonês de fabrico manual, no entanto, o poder das imagens não flui tanto da sua beleza formal como da maneira como envolvem o espectador no seu estado de alma. Não têm legendas a acompanhá-las, pois parece de somenos importância saber como e quando foram tiradas. As fotografias são, pura e simplesmente, janelas para um mundo onde o silêncio e a paciência governam o tempo".

Podem visitar o site oficial http://www.ashesandsnow.com/en/ e experienciar. Muito bom... Boa viagem!