Avançar para o conteúdo principal

Escravos na catedral

Entrei na catedral.
Gigantesca e fria.
Contraditória na distância a que nos coloca de algo que defende estar tão próximo de nós.


Entrei na catedral e eles já lá estavam.
A sua presença permanecia naquele lugar.
Numa contínua repetição de um acontecimento.
Dei três passos e fechei os olhos.
Deixei-me ficar assim por momentos.
E fiquei a senti-los e a ouvi-los chegar.
Vinham de roupa rasgada, pés descalços e raiva no olhar.
Os mais novos sorriam sem perceber o que se estava a passar.
Não sabiam que chegavam para não mais voltar.
E olhei para eles embora não os pudesse ver.
Olhei para as suas caras que na multidão não tinham rosto.
Eram muitos e vieram ainda mais.
Chegavam sem parar.
E ao mesmo tempo ouvi o casco de cavalos.
Ouvi alguém dando uma ordem numa língua que não entendi.
O acontecimento não fora ali mas noutro lugar.
Ali estava apenas a porta e a presença do que à raiva algo mais tarde veio dar lugar.
Não abri os olhos porque só assim os poderia ver.
A cada passo no chão de pedra, História.
E iam ficando. Presos a uma ordem e a um olhar.
E o acontecimento repete-se com outras caras, e outras ordens noutros lugares.

Senti escravidão.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Évora - Portugal 2007 Vai uma lengalenga? Anani Ananão. Saltas tu e eu não. Pássaro ou avião? Fico eu e tu, não.

Leituras - "Equador"

de Miguel Sousa Tavares. 2003. Acho que, até à data, este deve ter sido o livro que li (ou absorvi...) mais rapidamente. Desde a primeira página até à última página prendeu-me e dele não me consigui libertar até terminar. Por variadas, e talvez algumas até inconscientes, razões. Porque estive recentemente no país sobre o qual a história recai - São Tomé e Príncipe. Porque consegui ligar cada detalhe descritivo aos sítios concretos por onde também passei. Porque percebi e senti a história. E por tudo o resto de um conjunto de pontas soltas e aparentes coincidências que aqui se ligaram. Mais não será preciso dizer para concluir que gostei bastante. "Quando, em Dezembro de 1905, Luís Bernardo é chamado por El-Rei D.Carlos a Vila Viçosa, não imaginava o que o futuro lhe reservava. Não sabia que teria de trocar a sua vida despreocupada na sociedade cosmopolita de Lisboa por uma missão tão patriótica quanto arriscada na distante ilha de S. Tomé. Não esperava que o cargo de...