Avançar para o conteúdo principal

Leituras - "Contos"

de Tchékhov. Séc. XIX.

Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904) foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. A sua escrita percebe-se claramente ter grande influência da cultura russa. É simultaneamente fria, formal, reverente e por outro lado envolvente, quente, apaziguadora. Os seus contos são simultaneamente sátiras à sociedade e aos sentimentos de um comum ser humano, e conseguem ainda assim ser enternecedores naquilo que nos ensinam através do cómico a coisas maioritariamente tristes e mundanas. Gostei muito. Adorei os contos: Saudade, O Beijo, e O Testa-Branca.
(a capa deste livro é lindíssima... é a pintura "A Dama de Vestido Verde", de August Macke, 1913)

Frases/ideias que registei destes contos:

"Os olhos de Iona percorrem sôfregos e inquietos as chusmas que formigam de ambos os lados da rua: não haverá entre aqueles milhares de pessoas quem aceite ouvi-lo? Mas a multidão corre sem atentar nele, nem naquela saudade... Uma saudade tão grande, tão sem fim. Se o peito de Iona rebentasse e aquela saudade se derramasse, inundaria o mundo, contudo ninguém a vê. Tão mísera a casca em que a saudade se meteu, nem à luz do dia se vê..."

"E todo o mundo, toda a vida pareceram a Riabóvitch uma brincadeira incompreensível, sem sentido... Desviando os olhos da água e lançando-os para o alto, voltou a lembrar-se como o destino, na pessoa de uma mulher desconhecida, o aconchegara sem querer; lembrou os sonhos e as imagens estivais: e a vida caiu-lhe em cima, miserável, incrivelmente aborrecida e incolor... ... Por um instante, acendeu-se no seu peito uma alegria. Apagou-a imediatamente, deitou-se na cama e, para fazer pirraça ao destino, como que para o irritar, não foi a casa do general."

"Olhava-a nos olhos parados, assustados, beijava-a, falava-lhe baixinho e com meiguice, e ela foi-se acalmando, a alegria voltou-lhe a pouco e pouco e, em breve, já riam os dois"

"...e, vindo de baixo, o ruído do mar, surdo e monótono, que falava do sossego, do sono eterno que nos espera... e assim continuará , com a mesma indiferença e a mesma voz surda, quando já não estivermos neste mundo. E é nesta imutabilidade, na indiferença absoluta para com a vida e a morte de cada um de nós, que talvez resida o penhor da nossa salvação eterna, do movimento ininterrupto da vida na terra, do aperfeiçoamento ininterrupto."

"Gente assim, infeliz e resignada, é a mais insuportável, a mais difícil. Quando um homem infeliz, como resposta a uma censura merecida, olha com aqueles olhos sem fundo e culpados, sorri doentiamente e, submisso, expõe a cabeça, parece que nem a própria justiça terá ânimo para levantar a mão contra ela."

"Quem se preocupa, acima de tudo, com o sossego dos seus entes queridos tem de erradicar completamente da sua vida as ideias."

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Évora - Portugal 2007 Vai uma lengalenga? Anani Ananão. Saltas tu e eu não. Pássaro ou avião? Fico eu e tu, não.

Leituras - "Equador"

de Miguel Sousa Tavares. 2003. Acho que, até à data, este deve ter sido o livro que li (ou absorvi...) mais rapidamente. Desde a primeira página até à última página prendeu-me e dele não me consigui libertar até terminar. Por variadas, e talvez algumas até inconscientes, razões. Porque estive recentemente no país sobre o qual a história recai - São Tomé e Príncipe. Porque consegui ligar cada detalhe descritivo aos sítios concretos por onde também passei. Porque percebi e senti a história. E por tudo o resto de um conjunto de pontas soltas e aparentes coincidências que aqui se ligaram. Mais não será preciso dizer para concluir que gostei bastante. "Quando, em Dezembro de 1905, Luís Bernardo é chamado por El-Rei D.Carlos a Vila Viçosa, não imaginava o que o futuro lhe reservava. Não sabia que teria de trocar a sua vida despreocupada na sociedade cosmopolita de Lisboa por uma missão tão patriótica quanto arriscada na distante ilha de S. Tomé. Não esperava que o cargo de...