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Surrealidades do meu dia-a-dia #9

Estar alegre e serenamente na horta e aparecer sem dar conta um homem numa cadeira de rodas (daquelas que andam sozinhas!). O homem olha para mim. Eu olho em redor. Sim ele está mesmo a olhar para mim. E está ali, parado... a olhar para mim. De repente sinto medo, mas depois apercebo-me que isso é ridículo e que mesmo que ele quisesse não me poderia fazer muito mal dado que não consegue andar, não fala e apenas gesticula. Portanto, passo a sentir pena. Não imagino nem quero imaginar como será viver assim, preso dentro do próprio corpo. O homem sofre, aparentemente, de paralisia cerebral. Parece-me que não ficou assim algures na vida ou na sequência de algum acidente. Algo me diz que ele já terá nascido assim. Mas não sei.
Continuo então nos meus afazeres da horta e aceno, dizendo apenas "bom dia!".

Ao fim de algum tempo volto a olhar e o homem da cadeira de rodas continua ali. Parado, a gesticular e a emitir uns sons esquisitos para mim.

Ora bolas.,, o que faço agora?!?!

Aproximei-me dele, e disse-lhe "provavelmente não vou perceber o que quer dizer mas precisa de alguma coisa?"...

... ao que o senhor respondeu que sim, acenando vigorosamente com a cabeça. Ora bem, ele precisa de alguma coisa, agora como é que raios eu vou perceber o que é que ele quer?!!? 

"quer alguma coisa aqui da horta? Para o almoço?"....

... e ele, no limite da sua paralisia cerebral e motora.... fecha os lábios em U e manda-me um beijo!

Eu ri-me. Pensar que senti medo, depois pena, depois bloqueada, e por fim... apenas... perplexa! Acenei-lhe com a mão e desejei-lhe um bom dia!

E ele abalou, na sua cadeirinha de rodas.

Actualização: Fiquei a saber que o homem da cadeira de rodas não sofre de paralisia cerebral mas sim de esclerose lateral amiotrófica. Era uma criança normal quando foi diagnosticado. Tem vindo a perder as capacidades físicas e motoras de forma rápida ao longo dos anos. Quem o conhece descreve-o como um rapaz muito inteligente que vive preso no seu próprio corpo.

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